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quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

A PEDOLOGIA E A AGRICULTURA

O kota André Buta, Geólogo PhD, é dos que indirectamente mais me dá "sangue" quando se trata de alimentar o meu hobby de plantar árvores e cuidar delas com recurso à ciência geológica.

Nasci numa aldeia interior e, até aos 10 anos, vi-me cercado por árvores nativas e plantadas por homens, os meus pais e parentes.
A cidade de Luanda, que encontrei em 1984, era ainda arborizada e com lavras à volta, o que fez com que, mesmo na cidade, "desconseguisse" retirar o mato de mim.
Trafegando entre Madrid e Sevilha, o meu espanto foi ver pinheiros, oliveiras e citrinos a crescerem saudavelmente por cima de pedras. Sim, isso mesmo. Pedras ou rochas.
- Kota André, já viu?
- O quê?
- As pedras e a agricultura. - Emendei.
- Pois é! O estudo e conhecimento da pedologia permitem. Basta fazer um sulco ou haver uma lâmina de terra e rega. O resto, a própria planta resolve em termos de enraizamento e sustentação.
- Assim vai me dizer que o "drilling" também é chamado na agricultura?
- Vê bem. Acima da rocha deve haver uma pequena canada que não suporta a aplicação profunda da planta. A solução, quando tal acontece, é mesmo perfurar a rocha e encaixar a planta em uma saqueta de plástico. Depois, a planta cuida de se adaptar, crescer e mandar as raízes se fixarem e buscarem o alimento aonde for possível.
- E nós, com tanta terra, tanta água e tanto sol, continuamos "preguiçosos" em plantar. Já viu, kota?!
- Pois é. Chamem os geólogos! - Fechou o capítulo da longa conversa sobre a geociência que ele bem domina.
- Vou insistir, tentando, mesmo que seja em solo arenoso/poroso e clima quente. - Falei para meus botões.
Sempre podemos alimentar a planta mesmo em terreno de elevada porosidade, em que a água arrasta para o fundo os nutrientes, deixando-a sem alimento.
Faça um sulco de 80 a 100 cm de diâmetro e igual medida em profundidade. Preencha o espaço com empréstimo (terra melhorada) ou adubo orgânico feito de restos de alimentos e terra (qualquer que seja).
Para fazer o adubo orgânico, tenha um balde de 20 litros ou outro maior, faça pequenos furos na base para drenar. Sempre que tenha restos de comida (carnes, vegetais, folhas, cereais, carnes, cascas de ovos, etc.) deite no balde e jogue uma pequena porção de terra e água, mantendo-o sempre tapado para evitar odores, se fizer este processo dentro do quintal.
Ao fim de sessenta ou noventa dias, depois de o balde estar cheio, terá a matéria orgânica decomposta e pronta para servir de nutriente às plantas. Esse composto alimentará, na proximidade, a sua planta (abacateiro, mangueira, safueiro, jaqueira, citrino, romãzeira, videira, maracujazeiro, goiabeira, figueira, nogueira, artocarpus altilis (fruta-pão), bananeira, ou ainda hortaliças como couves e repolho, etc.
Temos experimentado, há já algum tempo, com bons resultados (em Viana e Zango). Cada manga, mamão, banana ou quiabo que se colhe em casa são sempre alguns Kwanzas que se poupam, para além da alegria da criança que aprende o ciclo da planta, da estaca ou semente até à fruta.

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

VENCENDO O SALALÉ

Condomínio Lamberghini, Pólo Industrial de Viana, 13.12.2022 - Levamos à terra uma anonácea, uma romanzeira e uma nespereira. 

O cafeeiro já tem café. A pitangueira também mostrou duas pitangas e outras flores. A "Teresa Paciência", laranjeira saída do Lugango e ofertada pela prima Teresa, cresce a caminho do sol. Sementes de girassol foram também lançadas ao solo. 

Sendo período de chuva, espero que as paltas se adaptem ao solo e as sementes germinem.  


sexta-feira, 11 de novembro de 2022

PHISÁLIS


Physalis é silvestre. Aparece no meio da lavra e, sobretudo, nas hortas de forma espontânea, sendo a semente largada nos dejectos de passarinhos ou por reprodução sucessiva.
A fruta amarelada, quando madura, é doce e saborosa. Os europeus descobriram o gosto e os benefícios à saúde. Têm importado a physalis da Ásia.
Penso que dentro de algum tempo, ela deixe de ser considerada fruta silvestre, tendo em conta o plantio massivo da mesma.
Trouxe sementes de Lisboa e já germinam em um vaso. Trouxe também sementes secas de cereja ...

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

A "CABINDENSE" E A "BENGUELENSE"

"A cabindense". Assim tenho tratado a borracheira colhida e levada a Luanda,  acidentalmente, quando se pensava ser uma artocarpus altilis. Era uma hóspede intrincada entre ramos da "fruta-pão.

Em Cabinda, 2021, o meu irmão Henrique Bitebe, comovido com a minha aflição e causa em obter,  de forma afoita, uma artocarpus altilis, levou-me ao internato/escola de madres, onde se acham exemplares da planta que procuro ter há já 24 anos.
Acontece que, enquanto pequenas, borracheira e artocarpus altilis se confundem. Entretanto, uma era hospedeira e outra o hóspede. Também trouxemos raízes da hospedeira que não redundaram em nova planta. A hóspede está aí, crescendo que nem loucura. Sempre que a vejo, penso no mano Henrique Bitebe.
Aliás,  no meu Libolo é assim: quando dois homens adultos firmam uma amizade indestrutível e desapaixanada (kisoko), um deles dá uma sobrinha em casamento, para que deste saiam parentes de sangue comum. É a transformação da amizade em parentesco de sangue.
Nos dias modernos, a alternativa tem sido a oferta de um animal fêmea reprodutora ou uma planta de vida perene.
Assim, a minha "mulembeira" é Henrique Bitebe, tal como a palmeira é Tino Cardona!
O Tino, jovem simpático benguelense, cuja irmandade foi selada numa formação na ENAPP, chamou-me à sua casa para me oferecer 4 bananeiras, entre de mesa e banana-pão. Uma bananeira sobreviveu ao solo poroso, desnutrido e quente do Zango, tendo me dado, já, um belo e bem-criado cacho.
Acto contínuo, capturei um rebento de dendêm da palmeira que e se acha no seu quintal. No dia da visita, levei para ele, em retribuição, uma cajá-mangueira que ele tem tratado com esmero. É pena que leva 3 a 4 anos para frutificar.
O Tino é outro que merecia, na minha tradição ancestral, dar ou receber uma sobrinha em casamento. Ainda bem que trocámos árvores frutícolas perenes!

sábado, 1 de outubro de 2022

UM SAFUZEIRO EM LUANDA

O clima semi-arenoso e quente de Luanda é tido como inadequado ao cultivo de determinadas culturas, sobretudo aquelas que demandam solo húmido e humificado.

O abacateiro, os citrinos e o safuzeiro são das plantas (anteriormente) proibidas em Luanda mas que a resiliência e inovação do amante da "agro-house" têm dito sim.

Na imagem um safuzeiro, em, Viana, Luanda, florindo. Ao lado do safuzeiro, uma romanzeira e um abacateiro desmentem velhas falácias sobre indaptação destas árvores do interior em terreno poroso e quente.


quinta-feira, 15 de setembro de 2022

ANGOLA, A DESIDADE POPULACIONAL E O MILHO

As primeiras teorias económico-demográficas com que me familiarizei, ainda como estudante no IMEL (Curso Médio de Jornalismo, 1993-96) foram de Thomas Malthus, economista britânico de defendia a “punção demográfica”, considerando importante o  controle do aumento populacional (teoria conhecida como malthusianismo), visto que, enquanto os meios de subsistências crescem em progressão aritmética, a população cresce em progressão geométrica, sendo que “a melhoria da humanidade seria impossível sem limites rígidos para a reprodução”.

Tendo vivido entre 1766 a 1834, o “pai da demografia”, clérigo anglicano, economista e matemático, teorizou ainda “desconhecer que algum escritor aventasse a possibilidade de o homem da terra puder viver sem comida."

Vagueando pelo WhatsApp, deparei-me com um scheenshot de uma página do livro História Económica de Angola, relatando o “quadro geral de exportações de Angola entre 1946 e 1947”, em volume e valor. Em 1946, a população de Angola era de aproximadamente 2 milhões (Dilolwa, 1978), produzindo-se naquele ano 115 mil toneladas de milho.

Angola, com seus 1246700 Km2, conta perto de 33 milhões de habitantes, em 2022, uma densidade média de 26,46h/km2.

No Brasil, por exemplo, para além de servir ao consumo humano, o milho é um componente fundamental das rações destinadas à criação animal, distribuído da seguinte forma: 63,5 % na avicultura de corte; 59,5 % na avicultura de postura; 65,5 % na suinocultura; 23 % na pecuária de leite (em equilíbrio com a participação do farelo de trigo 23% e farelo de algodão 20%.

Segundo ainda a página www.agencia.cnptia.embrapa.br/gestor/milho (consultada a 22.10.22), no Brasil o milho responde a cerca de 70% do custo de produção de aves e suínos, ao passo que na alimentação humana, o consumo anual per capita é de 18 kg em média, um indicador que pode estar abaixo do consumo humano do milho em Angola onde o funji ou pirão, a kanjika, a massaroca e o lukangu imperam à mesa dos cidadãos nacionais de vários extratos sociais.

Como aumentar a felicidade das pessoas sem aumentar a produção ou como fazer com que haja equilíbrio entre terra, povoamento e produção alimentar?

www.poupainvest.com (22.06.22) diz que Angola precisa cultivar 500 mil hectares de milho para poder satisfazer as necessidades de consumo de milho e seus derivados, sendo que (em 2020) a produção nacional é/era apenas de cerca de 2 milhões de toneladas por ano, cerca de 40% da necessidade anual.

Terra humífera, água, vias de comunicação, energia eléctrica e telecomunicações são alguns itens a ter em conta.

Sendo que o sector de Energia diz “haver superavit em termos de produção de energia", havendo apenas “constrangimentos a ultrapassar na transportação e distribuição”, defendo:

1-  Redistribuição de terras ociosas detidas por gente estranha à agricultura ou que a não pratica àqueles que estão empenhadas na lavoura;

2-  Preservação de terras comunitárias e passagem de títulos para usufruto, afastando a sua usurpação por elementos estranhos às comunidades;

3-  Potenciação de cooperativas agrícolas e atribuição de personalidade jurídica para que possam socorrer-se de créditos e outros serviços bancários;

4-  Aplicação da ciência na agricultura: acompanhamento regular e qualitativo dos processos e ciclos agrícolas por técnicos especializados;

5-  Mecanização agrícola;

6-  Electrificação do campo, levando a energia eléctrica às fontes de água e permitir o bombeamento desta. Neste quesito, a Fazenda PIP, em Cacuso, é bom exemplo, tendo baixado consideravelmente os seus custos ao substituir o bombeamento de água por via de energia termo-eléctrica pela da rede pública;

7-  Construção de vias de comunicação (estradas) nas áreas de produção para facilitar a circulação (abastecimento e escoamento);

8-  Implantação de telecomunicações nas zonas de produção para permitir a mobilidade e permanência de capital humano qualificado nas zonas rurais e fomentar o repovoamento do campo;

9-  Levar a indústria de conservação e transformação ao campo (a exemplo da Rússia do final do séc. XIX e princípios do séc. XX) e acrescentar valor agregado às commodities;

10-             Apostar numa agropecuária e indústria transformadora apostada na qualidade, de acordo às normas internacionais, competindo em igualdade de circunstâncias com os produtos agroindustriais da região e do mundo.

Seguindo a lógica do crescimento demográfico, se em 1946, em que éramos 2 milhões de habitantes, a produção ascendia a 115 mil toneladas de milho/ano, aos 33 milhões de habitantes devíamos estar próximos de 4 milhões de ton/ano para gerar "equilíbrio" entre o saldo populacional e o suprimento de necessidades alimentares. E estamos a falar apenas de milho, sem ter em conta outros bens da cesta básica.

Por último, é importante manter a agricultura como base e a indústria como factor decisivo do nosso desenvolvimento.


Obs: publicado pelo Jornal de Economia & Finanças de 24.06.2022

domingo, 14 de agosto de 2022

"DESMONTANDO" INVERDADES QUE LEVAM PERTO DE 1/2 SÉCULO

Há mitos bons que, coincidem com a ciência, fazem a humanidade progredir. Enterrar capim e restos de troncos, por exemplo, cria matéria orgânica e alimenta a planta. Há, porém, outros mitos que devem ser substituídos pela razão, tal como os filósofos helénicos se opuseram aos mitos dos pensadores de Mileto (Tales, Anaximandro e Anaxímenes).

Quantas vezes você leu ou ouviu dizer que "em Angola faz-se agricultura em todo o lado", ou que "os nossos solos são muito férteis", quando não se apimenta que "todos eles têm bastante húmus"?
Do ponto de vista da sua constituição geológica, diz o entendido em Geologia Nelson Cabanga, os solos são consequência de erosões que as rochas sofrem, em que detritos, resultantes desta erosão, ao serem depositados numa vasta superfície, criam o tal solo, processo que resulta de milhões de anos.
Imaginemos que estes detritos resultem de rochas ácidas? Provavelmente haverá plantas que não se adaptem a estes solos ácidos, daí a necessidade de tal tratamento por meio de outros componentes. Já se forem rochas básicas, existirão plantas que se adaptam mais a este tipo de rochas, sem desprimor de não necessitarem de tratamento. Daí nasce exatamente o casamento entre o agrônomo e o geólogo.
Nelson Cabanga prossegue que caberá ao geólogo estudar a característica química do solo, se possível identificar o tipo de rochas que circundam estas zonas, e tentar compreender a forma como o este solo foi criado que, normalmente, leva milhões de anos, por meio dos processos mecânicos de erosão.

Numa conferência recente, em Benguela, em que se discutia a pertinência do uso de rochas fosfatadas para a correcção de solos agrícolas,  o Professor e ambientalista João Serôdio disse, em som audível, que "os solos angolanos não são nada ricos", conforme sempre se apregoou, "com excepção de algumas regiões de Malanje que têm solos férteis e profundos".

O académico "desmontou" mais uma tara que nos fazia "gigantes de barro", fazendo-nos acreditar (quase toda a minha geração nascida no campo) que "de Cabinda ao Cunene, os nossos solos não precisavam de correcção, nem de adubação".

João Serôdio disse mais: é preciso corrigir os solos, através da rochagem, tendo em conta a necessidade de sua melhoria e manutenção das características, mas é preciso também "estudar os solos receptores e a rocha a adicionar que devem ser compatíveis, para não criar mais estragos do que solução".

Acrescentou que, "apesar da rochagem, a adubação deve estar sempre presente para que se obtenham elevados índices de produtividade".

Agora que tomei conhecimento, vou procurar calcário dolomítico para corrigir o solo da minha "kibela" e continuar a fazer NPK orgânico para alimentar as plantas do pomar doméstico. O fosfato é também chamado como alimento para as plantas que precisam de matéria orgânica que deve ser "sempre reposta".
É preciso levar a verdade aos que trabalham a terra para que, conhecendo os pontos fracos, se potenciem, corrijam os solos, tenham melhores colheitas e se afugente a pobreza nas comunidades rurais.

Para quem aposta no milho, por exemplo, para além de ter de encontrar ou transformar a terra em solo humífero ou humificado, deve também olhar e apostar em: cuidado e protecção da sementeira antes da germinação; semear em época certa e sob condições climáticas apropriadas; atenção com o manuseamento dos instrumentos de trabalho (sacha, adubação, rega, etc.); irrigação de qualidade (quando não é por sequeiro); controle de pragas, entre outras técnicas (adaptado de AZEVEDO; SILVA, 1999).

BG, 02.06.2022
Texto publicado pelo Jornal de Economia & Finanças a 10.06.2022