Translate

segunda-feira, 8 de junho de 2026

LALAMA: TÃO PRÓXIMO E TÃO DISTANTE!

19.01.2020- Zona ribeirinha ao rio Zenza, em Icolo e Bengo. Tão próximo, mas também tão distante, segundo as gentes que aqui agriculta.

A zona agrícola, municipio de Catete, é próxima de Luanda. Imperam casotas feitas de chapas. Resta saber se é pela facilidade de sua montagem ou uma cultura "arquitectónica" que se instala entre os meus "conterrâneos" catetenses de Lalama.

Ao que pude ver, naquele rio (Zenza) e naqueles angolanos, não correm apenas água e sangue. Corre também o desejo e o empenho  de todos os dias de irrigar a terra fértil e alimentar as comunidades, as vilas e a grande cidade.

A zona é "tão distante" do nosso curto imaginário que, durante décadas, ganhou a falsa ideia ou mesmo cultura da impossibilidade de.se praticar a agricultura em Angola, nem mesmo à volta de cidades, "por causa das minas pessoais": uma per capita, tudo para alimentar o bolso com os desvios que a importação permitia ou a reiqueza fácil facultada pela vemda do que comer . 

Tão distante para gente que pensa que a agricultura familiar precisa de ser feita com muitos recursos subvencionados pelo Estado, per si já magro, que já mama com impostos na teta do arruinado cidadão. 

Tão longe, Lalama, nas mentes de gente que nas suas cercanias ergueu luxuosos risorts e quintas de fazer turismo para que os exauridos, extorquidos e distraídos com festas de "sempre a subir e tchilar" não descobrissem onde repousam os dinheiros da sua fome e miséria imposta pela falta de patriotismo dos que se colocaram no leme do navio.

Em Lalama, antes terras agrícolas de mamãs "tembuás" sem trabalho em casas de sô ´tor ou funcionários da administração (Catete de Cima, Catete de Baixo, Domingos João, Kinzau, Mazozo, e eteceteras), observei um cruzamento de procedências:

_ Eme ngangw'Epala-kya-Samba, Kotofe katundu (sou da Kibala, vim de Katofe).

_ Ame nda kitiwila ko Vye (nasci no Bié)

_ A ngivalela ku Kaxikane, ngeza mu sota wengi (nasci em Kaxikane e vim procurar negócio)

_ Yami nguli kacokwe. Cihunda ca Nuryeji (Sou procedente de Muryeji, sou kacokwe)

É. Lalama mostra em miniatura o que Angola precisa: mulheres e homens que trabalhem e que digam não à ociosidade e ao furto da banana e mandioca alheia!

Observei atento, o que um (hoje) desconhecido investidor (meu filho disse que só podia ser branco pelo tamanho das edificações) erguera em Lalama. Casa de dois pisos e um miradouro, campos irrigados, no vale do Zenza, pocilgas e casas para "assalariados" ou contratados (escravos camuflados de outra era) que ali trocavam suor por peixe, fuba e cobertor. Bem podiam ser aproveitadas as instalações e revitalizados os campos de produção intensiva e permanente. Mas, o fogo da revolução, o "partitudismo" que a "independência trará coisas novas e melhores", tudo derrubou, obrigando as pessoas a começarem do nada.

Também conheci, finalmente, a rodovia que liga Viana-Catete-Kifangondo-Cacuaco-Viana.

Tão próximo, mas também tão distante (para quem não anda)!

sábado, 2 de maio de 2026

PLANTAS COM ANTROPÓNIMOS

Na minha estufa e no meu pomar caseiro, cada planta e cada árvore recebe um nome humano.

O mangostão resultou de sementes sugeridas pela Lídia Lopes, enquanto estávamos numa missºao de serviço no Dubai. Levadas à terra, brotaram duas plantinhas, e dei o nome dela.
O nome de Tino Cardona foi atribuído à bananeira e à palmeira que ele me ofereceu.
Uma mangueira, já a brindar-me com suculentas frutas, ganhou o nome da doadora, Maria de Lurdes "Milu".
Depois de 27 anos à procura da planta Artocarpus altilis (fruta-pão), finalmente consegui uma, enviada do Uíje pelo Jaime Reais. Ela sobreviveu e se adaptou ao clima e solo do Zango IV, ganhando o nome de Jaime.
O Jose Kassola Kassola presenteou-me com abacates carnudos. As sementes germinaram e as mudas receberam o nome dele.

domingo, 19 de abril de 2026

TENTAMDO KUMQUAT EM ANGOLA

Foi na minha terceira viagem à China (Abril 2026) que descobri o inesperado encanto de uma pequena laranjinha que se comia inteira, casca e tudo. O kumquat, ou kinkan, surpreendeu-me pela simplicidade: a casca doce contrastava com a polpa ácida, e juntos formavam um sabor que parecia conter histórias antigas de mercados e tradições.  

Na cultura chinesa, o kumquat simboliza prosperidade e boa sorte, sendo presença marcante nas festividades do Ano Novo Lunar. Pequeno como uma azeitona grande, mas carregado de significados, pode ser consumido fresco, cristalizado, em compotas, ou transformado em licores e chás medicinais.  

A humildade do gesto de plantar acompanha cada uma dessas descobertas. Não é apenas sobre o fruto, mas sobre a paciência de esperar, o cuidado de regar e a esperança de ver brotar. Assim como aconteceu com o mangustão, cujas sementes trouxe do Dubai, em trânsito de outra viagem à China, há dois anos, e que já começa a escrever sua própria história nos solos angolanos.  

Para que o kumquat floresça, precisa de solo fértil, profundo e bem drenado, rico em matéria orgânica, preferencialmente arenoso ou franco-argiloso. O clima ideal é subtropical a tropical, com boa exposição solar e chuvas moderadas, mas sem excesso de humidade. Em Angola, especialmente em Luanda e Munenga, o desafio será equilibrar a estação chuvosa com períodos secos, criando condições para que a planta encontre o ritmo certo de crescimento e frutificação.  

Trouxe sementes e foram lançadas nos vasos. Veremos o que deles virá e se se adaptarão ao solo e clima angolano. Lídia Lopes foi minha incentivadora.  

_ Leva, Dr. LAC, e conta as estórias, tal como tens narrado o crescimento do mangustão.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

APROVEITANDO A CHUVA, PLANTANDO BATATA

As notícias desta semana (12.12.2024), apontam algumas mortes feridos e desalojados como consequência da chuva em algumas cidades de Angola, sendo Luanda, Bengo e Benguela algumas reportadas pelos media. Pois é, enquanto a chuva é “amaldiçoada” por alguns citadinos, sobretudo em áreas com drenagem deficiente, ela é aplaudida pelos camponeses e agricultores que dela dependem para fazer os campos florescerem. Hoje, trago como anotações o plantio de batateira. A batateira quer produz batata-doce. Para início de conversa, importa anotar que há diferentes tipos de batata-doce, diferindo pela coloração, sabor, etc.

Em Angola, as regiões que mais produzem batata-doce incluem as províncias de Benguela, Uíge, Malanje, Cuanza-Sul, Moxico e Lunda Sul. Em Benguela, por exemplo, a produção de batata-doce tem aumentado significativamente nos últimos anos, especialmente na área de Dombe Grande. Todavia, é possível ter batata-doce em quase todo o país, incluindo Luanda, tendo em conta a fácil adaptabilidade da herbácea.

As espécies de batata-doce mais produzidas no nosso país são a Ipomoea batatas (batata-doce comum) e a Ipomoea batatas var. purpurea (batata-doce violeta), existindo outras.

A espécie Ipomoea batatas tem tubérculos de cor amarela ou laranja e é a mais comum. É conhecida por seu sabor doce e textura cremosa.  A Ipomoea batatas var. Purpurea tem tubérculos de cor violeta ou roxa e é menos comum. É conhecida por seu sabor mais intenso e alto teor de antocianina, um antioxidante.

A batata-doce é uma importante fonte de nutrientes e possui várias utilidades para o homem e animais domésticos:

Ela é rica em carboidratos, vitaminas (especialmente vitamina A e C) e minerais (como potássio e magnésio), sendo utilizada em uma variedade de pratos, desde sopas e saladas, purês, bolos, pães e sobremesas e ainda em panificação e confeitaria, especialmente em dietas sem glúten. Pode ser fermentada para produzir etanol, utilizado como biocombustível. Possui propriedades medicinais, como a redução da pressão arterial e a melhoria da digestão e contribui significativamente para a economia agrícola.

As folhas são comestíveis e podem ser cozidas como espinafre. São ricas em vitaminas A, C e K, além de minerais como ferro e cálcio. Servem ainda para forragem para Animais, sendo utilizadas como alimento nutritivo para gado bovino, cabras, porcos e outros animais. Possuem propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias, ajudando na saúde em geral, podendo ainda ser usadas como cobertura vegetal para melhorar a qualidade do solo, aumentando a matéria orgânica e a retenção de humidade.

A batata-doce é também usada na indústria alimentícia como espessante e em outros produtos como adesivos e cosméticos.

Quanto ao melhor método de plantar batateira, aqui estão algumas dicas essenciais:

A batata-doce prefere solos arenosos e bem drenados. Evite solos pesados e argilosos; Antes de plantar, prepare o solo arando e remova as ervas daninhas. Adicione matéria orgânica para melhorar a fertilidade; plante as mudas de batata-doce em sulcos ou montes, com espaçamento de cerca de 30 cm entre plantas e 1 metro entre linhas; mantenha o solo húmido, especialmente durante o período de crescimento inicial. Todavia, evite o encharcamento.

Controlar as pragas e doenças é crucial. Geralmente, a batata-doce geralmente está pronta para a colheita entre 4 e 6 meses após o plantio, dependendo da variedade.

Em terrenos declivados, que deixam escorrer a água da chuva, esse é bom período para o plantio. Em terrenos alagados ou baixos, o melhor é esperar que a chuva termine diminua ou cesse.

Publicado pelo JE&F a 13 de Dezembro de 2024

domingo, 15 de março de 2026

A REDENÇÃO DA PALMEIRINHA

Era tempo da pandemia de Covid-19. O meu estimado amigo Tino Cardona contactou-me para informar que já dispunha dos quatro pés de bananeiras — de mesa e de pão — que lhe havia solicitado. Pedi-lhe a localização por GPS, e a tecnologia, em seus avanços recentes, conduziu-me até à sua residência. Levava comigo uma jovem cajamangueira.

No quintal, deparei-me com uma palmeira e alguns rebentos minúsculos, com cerca de dez centímetros de altura. Como quem se entretém, apanhei um deles — quase com desdém — e plantei-o à entrada de um terreno no Zango IV (quando ainda se reconhecia como parte de Luanda).
O tempo foi passando, e a pequena planta erguia-se aos poucos. Meses depois, encontrei-a murcha, arrancada, exposta ao sol por obra de algum traquina qualquer. Triste, quase desolado, tomei-a de novo e replantei-a. Acrescentei-lhe calcário dolomítico, trazido de Malanje. A planta revigorou-se. Hoje, outros traquinas — ou talvez os mesmos de outrora — já se deleitam com os saborosos dendéns que ela oferece.

domingo, 8 de março de 2026

ENTRE SECA E INUNDAÇÕES

[Construindo memórias]

Por: Soberano Kanyanga 

Depois de 1978, baptizado ad initio como o Ano da Agricultura, mais um ano ficará na história pela "greve de São Pedro" e rasto de fome, lembrando ainda o poeta cabo-verdiano Jorge Barbosa que, em "há muitos anos houve um ano", eternizou a dor de um ciclo interminável de seca. Pois, 2026 junta-se, indubitavelmente, aos já cadastrados anos de seca severa, mas com um paradoxo cruel que só a natureza poderia pregar: enquanto o centro e o litoral de Angola clamam por água, o excesso noutras paragens sublinha a fragilidade de um país refém dos caprichos do clima. 

O ano de de 2026, ano que ficará gravado como aquele em que o céu, mais uma vez, se fechou sobre muitas terras de Angola. Em Luanda, no Icolo e Bengo, no Bengo e em boa parte do Cuanza-Sul e Cuanza-Norte, a chuva tornou-se apenas lembrança, coisa de outros tempos, de outros colheitas e alegrias, de outras esperanças. Os campos, outrora verdes e promissores, secaram sob o peso de um sol implacável e inclemente, desses que não perdoam e que transformam a vida em pó. 

As culturas de milho, mandioca, feijão batata, que sustentam famílias inteiras, murcharam antes de dar fruto e a terra rachada tornou-se metáfora da fome que se anuncia, da esperança que se desfaz em pó. 

A ausência de água não é apenas um fenómeno natural, não! É um golpe directo na economia doméstica e na dignidade das comunidades. 

O agricultor que vê o seu campo vazio sabe que o prato da família também se esvaziará e sobre isso não há discurso que explique, não há promessa que console. A seca traz consigo o espectro da migração forçada de homens e animais domésticos, da dependência de ajudas externas e da perda da autonomia alimentar, essa autonomia que tanto se precisa e que tão longe parece ainda estar. Os mercados já sentem o impacto. O preço do feijão e do milho disparou, tornando inacessível o básico para quem mais depende daquilo que a terra já não pode dar e os rostos, nos miseke e nas aldeias, contam a história que os números deixaram de registar.

Todavia, paradoxalmente, enquanto o centro e o litoral clamam por chuva, outras regiões vivem o excesso. Na Jamba, província da Huíla, as águas caem sem cessar, inundando campos e arrastando culturas. E o contraste é cruel. Onde falta água, reina a fome. Onde há em demasia, impera a destruição e, consequentemente, a fome. O país parece dividido entre dois extremos: a seca que mata lentamente e a enxurrada que arranca pela raiz o trabalho de meses. 

Este desequilíbrio revela a fragilidade da agricultura angolana, ainda tão dependente dos caprichos da natureza, com cerca de oitenta por cento do cultivo feito de sequeiro, à mercê de São Pedro e das suas "greves". O cenário mostra também a urgência de políticas de gestão hídrica, de irrigação e de protecção contra cheias, medidas que deveriam ter sido tomadas anteontem e não hoje, muitos menos amanhã. Porque a memória que se desenha de 2026 não pode ser apenas a lembrança de perdas, mas o ponto de partida para uma consciência colectiva. Sem água, não há pão; sem pão, não há vida. E é por isso que revisitamos o texto "Memórias do ano em que não choveu", que pode ser encontrado na secção opinião do Jornal de Angola ou nos blogues www.mesumajikuka.blogspot.com e AGRICULT'ARTE: MEMÓRIAS DO ANO EM QUE NÃO CHOVEU, para que não esqueçamos, para que a dor de hoje sirva de lição para os anos que hão-de vir.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

EXPERIÊNCIA COM SEMENTES DE CASMIROA

No dia 29 de Setembro de 2025, recebi do meu compadre Carlos Monteiro três sementes de casmiroa (Casimiroa edulis), fruta de origem meso-americana, considerada exótica e ainda rara em Luanda. A casmiroa, também conhecida como sapote branco, é nativa do México e da América Central, sendo apreciada pelo seu sabor doce e pelos benefícios que oferece à saúde humana, como propriedades antioxidantes, calmantes e digestivas.

Tendo em vista a sua possível adaptabilidade ao clima tropical de Luanda, decidimos, como já fizemos com outras espécies, tentar cultivá-la. À chegada, procedemos à remoção da casca branca e rígida que envolve cada semente, operação necessária para facilitar a germinação. Hoje, lançámos as sementes à terra, inicialmente em um vaso com substrato leve e húmido.
Caso tenhamos sucesso, esperamos que dentro de três a quatro semanas surjam os primeiros sinais de germinação. A partir daí, faremos o transplante para vasos maiores, com o objectivo de acompanhar o desenvolvimento das mudas até que estejam prontas para o solo definitivo.