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domingo, 8 de março de 2026

ENTRE SECA E INUNDAÇÕES

[Construindo memórias]

Por: Soberano Kanyanga 

Depois de 1978, baptizado ad initio como o Ano da Agricultura, mais um ano ficará na história pela "greve de São Pedro" e rasto de fome, lembrando ainda o poeta cabo-verdiano Jorge Barbosa que, em "há muitos anos houve um ano", eternizou a dor de um ciclo interminável de seca. Pois, 2026 junta-se, indubitavelmente, aos já cadastrados anos de seca severa, mas com um paradoxo cruel que só a natureza poderia pregar: enquanto o centro e o litoral de Angola clamam por água, o excesso noutras paragens sublinha a fragilidade de um país refém dos caprichos do clima. 


O ano de de 2026, ano que ficará gravado como aquele em que o céu, mais uma vez, se fechou sobre muitas terras de Angola. Em Luanda, no Icolo e Bengo, no Bengo e em boa parte do Cuanza-Sul e Cuanza-Norte, a chuva tornou-se apenas lembrança, coisa de outros tempos, de outros colheitas e alegrias, de outras esperanças. Os campos, outrora verdes e promissores, secaram sob o peso de um sol implacável e inclemente, desses que não perdoam e que transformam a vida em pó. 


As culturas de milho, mandioca, feijão batata, que sustentam famílias inteiras, murcharam antes de dar fruto e a terra rachada tornou-se metáfora da fome que se anuncia, da esperança que se desfaz em pó. 


A ausência de água não é apenas um fenómeno natural, não! É um golpe directo na economia doméstica e na dignidade das comunidades. 


O agricultor que vê o seu campo vazio sabe que o prato da família também se esvaziará e sobre isso não há discurso que explique, não há promessa que console. A seca traz consigo o espectro da migração forçada de homens e animais domésticos, da dependência de ajudas externas e da perda da autonomia alimentar, essa autonomia que tanto se precisa e que tão longe parece ainda estar. Os mercados já sentem o impacto. O preço do feijão e do milho disparou, tornando inacessível o básico para quem mais depende daquilo que a terra já não pode dar e os rostos, nos miseke e nas aldeias, contam a história que os números deixaram de registar.

Todavia, paradoxalmente, enquanto o centro e o litoral clamam por chuva, outras regiões vivem o excesso. Na Jamba, província da Huíla, as águas caem sem cessar, inundando campos e arrastando culturas. E o contraste é cruel. Onde falta água, reina a fome. Onde há em demasia, impera a destruição e, consequentemente, a fome. O país parece dividido entre dois extremos: a seca que mata lentamente e a enxurrada que arranca pela raiz o trabalho de meses. 


Este desequilíbrio revela a fragilidade da agricultura angolana, ainda tão dependente dos caprichos da natureza, com cerca de oitenta por cento do cultivo feito de sequeiro, à mercê de São Pedro e das suas "greves". O cenário mostra também a urgência de políticas de gestão hídrica, de irrigação e de protecção contra cheias, medidas que deveriam ter sido tomadas anteontem e não hoje, muitos menos amanhã. Porque a memória que se desenha de 2026 não pode ser apenas a lembrança de perdas, mas o ponto de partida para uma consciência colectiva. Sem água, não há pão; sem pão, não há vida. E é por isso que revisitamos o texto "Memórias do ano em que não choveu", que pode ser encontrado na secção opinião do Jornal de Angola ou nos blogues www.mesumajikuka.blogspot.com e www.agricultarte.blogspot.com, para que não esqueçamos, para que a dor de hoje sirva de lição para os anos que hão-de vir.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

EXPERIÊNCIA COM SEMENTES DE CASMIROA

No dia 29 de Setembro de 2025, recebi do meu compadre Carlos Monteiro três sementes de casmiroa (Casimiroa edulis), fruta de origem meso-americana, considerada exótica e ainda rara em Luanda. A casmiroa, também conhecida como sapote branco, é nativa do México e da América Central, sendo apreciada pelo seu sabor doce e pelos benefícios que oferece à saúde humana, como propriedades antioxidantes, calmantes e digestivas.

Tendo em vista a sua possível adaptabilidade ao clima tropical de Luanda, decidimos, como já fizemos com outras espécies, tentar cultivá-la. À chegada, procedemos à remoção da casca branca e rígida que envolve cada semente, operação necessária para facilitar a germinação. Hoje, lançámos as sementes à terra, inicialmente em um vaso com substrato leve e húmido.
Caso tenhamos sucesso, esperamos que dentro de três a quatro semanas surjam os primeiros sinais de germinação. A partir daí, faremos o transplante para vasos maiores, com o objectivo de acompanhar o desenvolvimento das mudas até que estejam prontas para o solo definitivo.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

O INHAME

É um tubérculo cultivável pertencente a várias espécies da família das dioscoreáceas e das aráceas. A palavra "inhame" origina das línguas do oeste da África. A palavra inglesa "yam" vem do uolofe "nyam", que significa "sabor" ou "comer". Dados consultados no ciber-espaço indicam que o inhame é amplamente cultivado em África, América Latina, Ásia, Oceania e nas ilhas da Macaronésia. Os principais produtores incluem Nigéria, Gana, Camarões, Índia e Brasil.

O tubérculo adapta-se bem a climas tropicais e subtropicais, como o de Angola e Luanda em particular, preferindo solos bem drenados e ricos em matéria orgânica e temperaturas entre 20°C e 30°C.
O inhame é um alimento nutritivo, rico em vitaminas (especialmente vitamina C e do complexo B), minerais (potássio, ferro e cálcio) e fibras. Ajuda na digestão, controle dos níveis de colesterol, prevenção de doenças cardiovasculares e fortalecimento do sistema imunológico.

Ao cultivar inhame, é importante garantir que o solo esteja bem drenado e enriquecido com matéria orgânica, evitando plantar em áreas com excesso de água para prevenir a podridão das raízes. A preparar o inhame fresco para o consumo humano, descasque-o debaixo d'água para evitar desconforto causado pela seiva contendo oxalato de cálcio.
A espécie de inhame que mais se adapta ao solo e clima de Luanda é o Inhame Africano (Dioscorea cayenensis). Esta variedade é bem-adaptada a climas tropicais e subtropicais, como o de Luanda, e prefere solos bem drenados e ricos em matéria orgânica e conhecido por sua resistência a pragas e doenças, além de ser uma excelente fonte de carboidratos, fibras e vitaminas essenciais. A produtividade do inhame varia entre 10 a 15 toneladas por hectare, quando observadas as boas práticas agrícolas, podendo constituir-se em uma boa oportunidade de encaixe financeiro.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

CASMIROA

 [vamos tentar]

A casmiroa (Casimiroa edulis), também conhecida como sapote branco, é uma fruta tropical pouco comum em Angola, mas com grande potencial agrícola e nutricional.
- Origem: América Central, especialmente México e Guatemala
- Nome homenageia: Casimiro Gómez, um líder indígena zapoteca
A casmiroa adapta-se bem a climas tropicais e subtropicais, com temperaturas entre 18 °C e 30 °C.
- Pode ser cultivada em solos bem drenados, ricos em matéria orgânica.
- Em Luanda, com irrigação adequada e protecção contra ventos fortes, pode desenvolver-se bem.
- Ainda é pouco explorada comercialmente em Angola, mas tem potencial para cultivo doméstico e agroecológico.
UTILIDADE
Alimentar: A polpa é doce e cremosa, ideal para consumo in natura, sumos, sobremesas e sorvetes.
Medicinal: Folhas e sementes têm propriedades sedativas e foram usadas tradicionalmente para tratar insónia e ansiedade (atenção: sementes podem ser tóxicas em grandes quantidades).
Ornamental: A árvore tem copa larga e folhas bonitas, sendo usada para sombra em jardins.
CARACTERÍSTICAS
Tipo de planta: perene
Altura: 5 a 15 metros
Fruto: redondo, verde-amarelado, polpa branca, sabor doce, suave, lembra banana e baunilha.
Floração: flores pequenas, esverdeadas.
Frutificação: 1 a 2 vezes por ano, dependendo do clima

BENEFÍCIOS PARA O HOMEM
Nutricionais: Rica em vitamina C, fibras, antioxidantes e minerais.
Digestivos: Auxilia na digestão e pode ter efeito laxante suave.
Ambientais: Contribui para a biodiversidade e pode ser integrada em sistemas agroflorestais.
Económicos: Potencial para diversificação agrícola e geração de renda em comunidades rurais.

domingo, 7 de dezembro de 2025

Do engano à esperança: O safueiro chegou!

Durante anos, uma longaneira cresceu sob o nome errado, confundida com o safueiro — árvore de frutos escuros e polpa doce, nativa das florestas tropicais da África Ocidental. Ofertada por uma amiga militar, a longaneira floresceu e multiplicou-se em quintais de Viana, Zango 5 mil, Munenga e no Polo Industrial, como quem espalha raízes de afeto e persistência.

Mas o verdadeiro safueiro (Dialium guineense), também conhecido como tamarindo-preto ou pau-veludo, parecia esquivo. Até que, num gesto de amizade e cumplicidade, o jornalista Miguel Daniel transformou uma promessa deixada num comentário de Facebook em realidade: três exemplares em vasos, ainda a curar do estresse de um dia trancados na viatura, aguardam o momento de serem lançados à terra firme.

Originário da faixa tropical que vai do Senegal ao Congo, o safueiro é uma árvore de copa densa e madeira dura, usada na construção e na produção de carvão. Seus frutos, pequenos e arredondados, têm casca negra e polpa doce-acidulada, rica em antioxidantes, ferro, vitamina C e fibras. São consumidos ao natural ou em bebidas, e usados na medicina tradicional contra febres, diarreias e inflamações.

O tronco, de madeira pesada, é valorizado na carpintaria e como lenha de longa duração. A árvore também contribui para a fertilidade do solo, graças à sua simbiose com bactérias fixadoras de nitrogénio.

Mais do que uma planta, o safueiro é símbolo de reencontro com a terra, com a memória e com a promessa cumprida. Que floresça, cresça e frutifique — como a amizade que o trouxe.

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

ANANÁS OU ABACAXI?

 Oiço em muitas conversas, no campo, se ananás e abacaxi são uma mesma espécie de planta ou diferentes. No Brasil, por exemplo, ananás e “abacaxi” são usados de forma intercambiável, embora o termo “abacaxi” se refira, geralmente, a variedades específicas como o Pérola e o Havaí.

Tratando-se de variedades de uma mesma espécie, aqui vão algumas diferenças e semelhanças:

Espinhos: algumas variedades de ananás têm folhas com espinhos nas bordas, o que pode dificultar o manuseio. A variedade Pérola tem folhas com menos espinhos ou sem espinhos, tornando-a mais fácil de manusear. Algumas variedades de abacaxi, como o Pérola, são conhecidas por serem mais doces e menos ácidas do que outras variedades de ananás.

Quanto à aparência, o abacaxi Pérola, por exemplo, tem uma casca mais amarelada quando maduro, enquanto outras variedades de ananás podem ter uma casca mais verde. Ambos têm uma estrutura semelhante, com uma casca externa dura e uma polpa interna suculenta. A fruta é usada na culinária em sucos, sobremesas e pratos salgados.

O ananás é rico em nutrientes. Contém vitaminas A, C, B, além de minerais como zinco, magnésio, fósforo e cálcio. A bromelina, uma enzima presente na fruta, ajuda na digestão de proteínas. Possui também uma acção anti-inflamatória, pois ajuda a reduzir inflamações e melhorar a circulação sanguínea. A vitamina C e outros antioxidantes presentes na fruta tropical proteger contra doenças cardiovasculares, promove a eliminação de líquidos, fortalece o sistema imunológico, ajuda na perda de peso e no combate às infecções.

A fruta prospera em climas quentes e húmidos, com temperaturas entre 22°C e 30°C, sendo Luanda, com o seu clima tropical, é adequada para o cultivo. A planta prefere solos arenosos ou semi-arenosos com boa drenagem e um pH ligeiramente ácido (entre 4,5 e 5,5)34. O solo semi-arenoso de Luanda é ideal para o cultivo do abacaxi/ananás.

Eis algumas das condições para uma boa produtividade

Deve ter boa drenagem para evitar problemas de podridão da planta; A precipitação ideal é a que varia entre 1.000 e 1.500 mm anuais, distribuídos de forma uniforme; a planta necessita de um equilíbrio adequado de nitrogênio, fósforo e potássio; quando possível, a irrigação por gotejamento é eficiente para manter a humidade sem encharcar o solo.

Seja ananás ou abacaxi (variedades de uma mesma espécie de planta), o importante é dar o 1° passo e fazer as coisas com carinho e dedicação. Cada fruta ou verduras colhidas são Kwanzas poupados no mercado.

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

MEMÓRIAS DO ANO EM QUE NÃO CHOVEU

Há já bons anos, houve um ano em que (quase) não choveu. Foi o 3° ano do pós-independência. Um ano antes, traçava-se o principal objectivo do ano seguinte e, bem no discurso de fim-de-ano, baptizavam-se os nascentes 365 dias com um lema: 1978 - Ano da Agricultura. E não choveu!

Lembro-me, ainda garotinho, do sofrimento de nossas mães carregando a mandioca até às "ndungas" lá aonde houvesse sobras de água em um rio que até então fora de curso permanente. E a mandioca apodreceu debaixo da terra ressequida. Outra era colhida para consumo tinha a forma esponjosa. As mandioqueiras secaram. Kizaka não havia, tirando na kitaka (horta) aonde as mamãs acorreram, às pressas, para salvar o que era possível da sementeira e saciar a fome que é e sempre foi inclemente. Os mais velhos recorreram, rápidos, aos "livros" guardados em suas memórias. Viajaram ao ano _xis_ da sua memória e rebuscaram algumas práticas de escape utilizadas em situações homólogas e a elas incrementaram novas ideias.
Fizeram pequenos diques para aproveitar o fio d'água que restava. Foram agricultar nos vales, zonas baixas anteriormente propensas a inundações, e aproveitaram a pouca água que se acumulava durante a noite para a rega matinal.
Eventualmente soubessem, talvez não. Os vales são locais de deposição de matéria orgânica, terra fértil por natureza, proporcionando boas colheitas e abundância.
Lembro ainda do peixe, salvação nossa enquanto _conduto_. Como todos seguíamos o curso do rio e o fiozito d'água até às represas naturais e artificiais (estas últimas feitas pelo engenho criativo derivado da crise), os bagres, sobretudo, misturavam-se às mandiocas em processo de demolha na ndunga, sendo apanhados à mão enquanto se retirava a mandioca demolhada para a seca e feitura da fuba. Outros peixes encontravam conforto nas represas e eram apanhados no processo de rega, quando a água minguasse. Só a caça era farta. Os pontos em que se achasse rastilhos de água eram de encontro entre homens famintos e animais sedentos. E tudo ficava mais fácil ao caçador que, tomando medidas de segurança para não ser caçado por leões e outras feras, abatia os animais possíveis para a sua dieta. Muita carne era trocada por cereais saídos de longe. E assim nos alimentámos naquele ano em que não houve chuva (quase) nenhuma. Foi no Ano da Agricultura.
Seja em tempo de chuvas fartas ou escassas, o aproveitamento dos vales, repletos de húmus, é crucial para a obtenção de boas colheitas, assim como a construção de pequenos diques e açudes para a reserva de água que pode ser usada para a irrigação. Plantas permanentemente regadas, que não dependam da caridade dos céus, têm mais saúde e proporcionam melhores rendimentos.

Pense nisso!

Publicado pelo JE&F de 27.09.24