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quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

A JACA

Em Luanda também é possível.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

UM CUMBO NA CIDADE

Cumbo (tchumbo) é, segundo Moisés Malumbo, a menor unidade agrícola familiar entre os ovimbundu, algo também aplicável aos ambundu, cuja família etnolinguística pertenço.

Na escala ascendente, Malumbo coloca: 

a) cumbo (à volta de casa) onde se colhe a verdura imediata;

b) naka (perto à meia distância de casa) onde se cultivam hortaliças, legumes e tubérculos. Naka é equivalente à zona baixa ou sob regadio.

c) épya (à distância razoável de casa) onde se cultivam bens de consumo permanente e excedentes para permuta e/ou venda.

A mulher tem um "kadescapado" anexo ao muro da casa, onde concentrou material de construção para vedação posterior.

Vou fazer o meu cumbo (pronuncia-se tchumbô) e deleitar-me com o crecer das plantas sobrevivas. Já estou vacinado do vandalismo da vizinhança: chegam em hordas, arrancam as plantas pelo simples prazer de não deixar o vizinho ter plantas no canteiro ou ao lado de casa. Não faz mal. O bem sempre vence!

Inspirado pela irmã Maria De Lurdes Bartolomeu, cuja estufa visitei este mês, e pela tia Judith Luacute que é apaixonada pelo verde (comestível) iniciei com duas bananeiras que gemiam asfixiadas dentro do quintal por falta de sol. Hoje a horta é grande e apresenta mamoeiros, masambala (massambala), ingombo (quiabo), ananaseiros, espinafre, videira, cacaueiros, goiabeira, romãnzeira, longaneira, maracujazeiros, tamarineiro e até duas tamareiras.

Assim termina meu 2021.

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

NOVO MEMBRO NA FAMÍLIA

Do Dondo a Luanda, antes de chegar à ponte sobre o Lukala, está uma aldeia que atende por Km 35. A fazer a descida, depois da curva, está sobre um montículo a casa do Tio João. Foi servidor público, em Luanda, até à sua reforma. Aposentado, preferiu o campo, regressando à sua área de origem.

Disse-me que tem um pomar: mangueiras, laranjeiras, limoeiros, tangerineiras, mamoeiros, gajajeiras, bananeiras, etc.
- Até mandioqueiras. - Acresceu o sexagenário.
De Malanje ao Dondo, fui sempre espreitando à beira da estrada onde encontrar uma gajajeira. Na viagem à Cabinda, descobri que bastava uma estaca e não semente.
Foi a descer a aldeia do Km 35, com a ponte sobre o Lukala à frente, que vi duas gajajeiras ainda jovens. A casa tinha a entrada principal aberta.
- Ó jovem, como se chama o dono desta casa? - Indaguei.
- É do avô João. Ele não saiu. Está mesmo aí. - Disse-me o adolescente.
Estacionei bem o carro e liguei os intermitentes, para prevenir os que iam a descer, geralmente a zunar¹.
- Pá-pá-pá (palmas). Com licença nesta casa!
A resposta fez-se tardia. Mas insisti com palmas mais fortes e voz mais intensa, até que de dentro se ouviu uma voz adulta a perguntar:
- Kenhê?
- Desculpe. Meu nome é Kanyanga. Gostaria de falar com o Tio João. Não é por mal.
Passaram uns 3 minutos.
- Desculpa, filho. Estava a pôr camisa. - Explicou-se.
- Eu é que peço desculpas. Sou Kanyanga. Gosto de plantas. Estou a fazer um pequeno pomar no meu quintal, em Luanda. Venho de Malanje e só aqui vi gajajeira. Preciso de uma estaca. - Solicitei.
O mais velho, contou a sua graça, seu hobby e sua vida profissional na capitalíssima. Indicou-me as árvores. Eram duas no quintal.
- Podes cortar. É pena que não tenho aqui catana afiada. - Disse simpático.
- Tenho tesoura de poda no carro. Pelo menos, assim não firo a árvore. - Emendei.
Peguei a tesoura e amputei dois galhos pequenos. A árvore mãe também era muito jovem.
Parti para Luanda e os dividi em quatro que lancei à terra. Dois já mostram sinal de vida. Podemos ter gajaja!
=
¹- Em alta velocidade.

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

ECI NYÊ?!

Tinha umas 4 ou 5 mandioqueiras no quintal, há dois anos. Quando arranquei a primeira e dei os tubérculos à minha mãe, disse-me que "estavam amargas".
Falei para mim mesmo:
- Vou descontituar essa espécie e plantar outra. Arranquei as demais e sobrara apenas uma estaca, a que me parecia menos desenvolvida.
Quando o meu mano Lauriano Tchoia se fez ao interior, pedi-lhe que arranja-se mandioqueira boa e trouxe dois segmentos de Nambuangongo (espécie reportada como produtora de mandioca doce) que plantei com sucesso, resultando em 4 estacas que aguardam pela chuva para "explodir".
Ontem, 29.09, vendo minhas galinhas a esgravatar o solo pensei:
- Vou arrancar a mandioqueira "amarga" que restou, ao menos elas, que devem ter saudade de mandioca, vão se deleitar.
Enquanto, com a enxada, eu buscava um pedaço que tinha ficado cravado no solo, o Sô Manel, encarregado da obra na Kam&mesa, provou e gritou:
- Sô Kanyanga essa mandioca é que você quê dá às hanga? É mbora mandioca doce!
- Doce? Como assim, se plantei no mesmo dia e minha mãe disse que as primeiras eram amargas?!
- Prova, então, Sô Kanyanga. -Disse ele já com a boca meio "entupida" e com os lábios esbranquiçados.
Peguei uma porção mínima. Não quis acreditar nas palavras dele. Sabem o que minhas pupilas gustativas disseram?
- Engano, Sô dono. A mandioca é de mesa. É doce!
Peguei o tronco e replantei dois pedaços. A mandioca dividi com o Sô Manel e as sete galinhas (receberam um bocadinho para fazer o bico e matar saudades de lavras assaltadas).





domingo, 8 de agosto de 2021

É MAIS DOCE A MANDIOQUEIRA DO QUE O TUBÉRCULO

Sim. Via minha mãe sofrendo, procurando transformar mandioca amarga em bombô e depois fuba. Plantamos a mandioqueira para, em primeiro lugar, dar kizaka (folhas comestíveis), mas tb dar tubérculos (mandioca) que é comestível cru, fervida e ou transformada em fuba (farinha) com que se confecciona o funji (pasta de mandioca).

A dada altura, pensei:
- O que vale ter mandioqueira que só da kizaka? Vou desactivar essa espécie e plantar uma que dê mandioca doce. - Assim pensei e fiz.
Apercebendo-me da ida do mano Lauriano Tchoia a Nâmbuangongo, pedi:
- Mano, faxavor. Preciso de mandioqueira doce. Nem que sejam 50 cm, desde que germine. Uma estaca bastará para em um ano reproduzir outras.
Nê que o kota cumpriu? Trouxe dois pedaços que reparti em quatro. No dia em que os fui deitar à terra, já não chovia.
Pá e enxada na mão, balde de água, um mais outros, até cumprir a empreitada, desactivei as jovens plantas carregadas de kizaka que exalava um verde que brilhava ao sol de meio-dia e mandioca grossa e amarga.
A minha mãe (embora invisual e dizem "quem não vê não sente muito" pelo que não conheceu) não gostou.
Pediu que não fizesse o mesmo com a estaca que se acha no quintal dela (próximo do meu). Expliquei as razões para a acalmar.
Daqui a um ano, estaremos a cortar os caules, já pujantes, e replicar noutros espaços, o que levará a desactivar também a mandioqueira amarga da casa da Velha Maria Canhanga.
Ao mano Lauriano, digo:
- Valeu teres me oferecido mandioqueira doce. Se fosse mandioca, por mais doce que fosse, não teríamos crônica durante o crescimento. Ainda virão outras sobre a colheita da kizaka e primeira mandioca doce.

segunda-feira, 12 de julho de 2021

TEMPO DE COLHER

Um hectare com espaçamento de 4 metros daria para plantar duas mil, cento e dezasseis romãzeiras. Se cada árvore produzisse uma média de 24 romãs/ano, teríamos101568 frutas calculadas ao peso médio de 250g, equivalendo a 25,4 toneladas. Dá para investir!                            

 

quarta-feira, 30 de junho de 2021

OS "AMIGOS" DO CARDOSO

Conheci a hanga¹ na minha infância, durantes as caçadas no Ryaha. Aos meus olhos de criança, elas eram lindas, muito velozes, esquivas e saborosas quando apanhadas num laço.

Eram poucos os que tinham perícia em apanhá-las. Guardei na memória o desejo de ter uma delas um dia quando crescesse.
Comprei as primeiras cinco galinhas-do-mato na Huila, em Dezembro de 2020. Três morreram em momentos distintos e uma sobreviveu.
Às galinhas de Angola, como são designadas pelos brasileiros, vou juntando as de kimbundu², também registando mortes e paciência em repor as perdas e aumentar a quantidade. Tinha tb uma avecuca³ que não chegou a dar em cabidela por se ter antecipado a morrer.
De volta à Huila, em Abril último, comprei outras três hanga (fêmeas) que juntei ao macho sobrevivo (aquele escondido atrás do pilar).
Vindo de Benguela, Moh Canhanga ofereceu-me uma galinha de umbundu⁴ que fui juntar ao galináceo.
A minha maior surpresa foi ver o Cardoso, um dos jovens que constroem a www.kamemesa.com, alimentar as aves colocando a ração na palama da sua mão. Parecia que os animais conversavam com ele, envolvendo-se em grande amizade.
Diz o Cardoso que os animais seguem-no sempre que o veem passar.
¹- Galinha-do-mato.
²- Galinha doméstica (gentia) da região ambundu.
³ Galinha criada em aviário de produção intensiva.
⁴ Galinha gentia da região ovimbundu.